Link in the Sky With Dungeons – Quem é o Batman do Nolan? Uma Visão da Trilogia e Personagens Dementes

Assisti na pouco tempo atrás no Youtube o documentário Batman Desmascarado do canal History Channel. O documentário é muito interessante, mas no texto de hoje eu venho falar bem menos dele e sim sobre as minhas impressões gerais sobre a recente trilogia do morcego, em cima basicamente da relação entre Batman Begins e O Cavaleiro das Trevas ressurge, inspirado nos trechos apresentados no documentário.

Primeiramente o assista se puder:

Ps: Para se compreender melhor o texto, basta imaginar que ele começou a ser escrito pouco depois de eu assistir a conclusão da trilogia do Nolan, e por sinal ainda não revi o último filme até a presente data.

Continuando, O Cavaleiro das Trevas Ressurge dialoga muito mais com Batman Begins do que com O Cavaleiro das Trevas, talvez isso tenha causado estranhamento em muitos expectadores e cinéfilos, já que O Cavaleiro das Trevas foi o filme anterior e Begins era visto até então como um filme menor, tanto para a série quanto para a filmografia de Chistopher Nolan. A relação fica mais evidente não só pelos elementos óbvios, como voltar no passado do personagem Ras Al Gul e a liga das sombras, mas principalmente ao tratar o Bruce Wayne como personagem.

Muitos costumam dizer que O Cavaleiro das Trevas é muito mais um filme sobre os vilões do que sobre o Batman e provavelmente eles têm razão, a questão é que O Cavaleiro das Trevas é quase um filme “autoral”(entre aspas, como se a trilogia do Batman também não fosse) do Christopher Nolan dentro da trilogia. É onde a questão psicológica toma tanto o primeiro plano que chega a ser maior que morcegos ou palhaços. Talvez por isso seja muito mais fácil enxergá-o como uma obra-prima ou um filme excelente, até mesmo por quem sequer assistiu outro filme do Batman. Ele funciona isoladamente de forma maravilhosa.

Não que Batman Begins não funcione assim, mas em muito do seu brilhantismo reside no fato de ser visto como a origem de algo que está por vir. Além disso Begins cresce ainda mais quando se relaciona com O Cavaleiro das Trevas Ressurge, assim como esse tambem cresce ainda mais quando se relaciona com o primeiro filme da série.

O ‘miolo’ da história do Batman, seu vigilantismo, é algo muito bem cravado no inconsciente popular. Nolan foi muito sagaz em sua missão de resgatar e trazer o brilhantismo do personagem para o grande público do cinema e ir muito além de fazer um filme com um chefão no final, basicamente a forma como a Marvel Studios está fazendo seus filmes.

Temos a origem e a mitificação do personagem em um primeiro e último filme e nada melhor do que a ligação entre eles(o segundo filme) ser a síntese da luta de Batman contra os supervilões, e aqui quando falo de super-vilões, falo de caras como o Coringa, O pinguim, O Bane, e não por exemplo os vilões do crime organizado, como o Falcone. Seres extraordinários, que estão à altura de Batman, inclusive na questão alegórica.

Essa síntese é representada pelo Coringa, o mais icônico vilão do personagem. Nolan com essa liberdade tornou, quase como um filme independente, O Cavaleiro das Trevas em um épico sobre a insanidade, que de certa forma representa não só o Coringa como vários da galeria de vilões do personagem.

Em O Cavaleiro das Trevas Ressurge, com a missão de concluir a visão do personagem, vêmos um filme que DEVE ser avaliado como uma resposta direta ao primeiro filme

Muitos afirmam que em sua versão do Batman a proposta de Nolan foi dar mais realismo à representação do personagem, mas na minha opinião não é bem isso.

Nolan trata com mais seriedade, e porque não, complexidade, as características psicológicas que definem Bruce Wayne / Batman e os demais personagens. Para mim Nolan nunca renegou a questão alegórica envolta no personagem, apenas a tratou de forma mais séria, de acordo com a atmosfera sombria dos filmes.

Por isso muitos tem dificuldade em aceitar o plano da liga das sombras em Batman Begins ou basicamente toda a grandinolência de O Cavaleiro das Trevas Ressurge. A fantasia de Batman é um reflexo do psicológico humano. E a trilogia do Batman não deixa de ser um filme de fantasia, sendo um filme sobre o psicológico antes disso e tendo o psicológico como o principal foco da abordagem.

No fim, o acontecido em Gotham em mais de 10 anos foi um reflexo do interior de Bruce Wayne, que levou o tempo de boa parte de sua vida para se recuperar de seus traumas. Mas ao contrário do que afirma o próprio Coringa ao final de A Piada Mortal – graphic novel de Alan Moore – ele foi capaz de se curar.

Sei que o Corto de Malta deve discordar de mim em alguns pontos, mas esta é minha opinião geral sobre a relação dos 3 filmes na trilogia de Christopher Nolan.

Eu gosto de dizer que o Nolan sempre faz filmes sobre personagens dementes, tanto em Memento, passando por Grande truque e A Origem ele faz isso, e em Batman, mesmo se tratando de um personagem que já existe em décadas de abordagens diferentes na cultura pop, não foi diferente.

Christopher Nolan tratou o Batman, o personagem que se veste de morcego, como uma doença, e o seu próprio trabalho na conclusão da trilogia como uma cura, adaptando a brilhante sentença de Stallone Cobra.