Link in the Sky With Dungeons: Kick-Ass e sua relação entre midias

Kick-Ass foi uma excelente filme. O quadrinho também foi divertido e tal mas Kick-Ass foi mais do que isso, mais do que só mais um quadrinho e mais um filme, foi um grande exemplo de uma obra e idéia que percorreu midias.
(ATENÇÃO: Este texto contém spoilers leves, especialmente sobre o filme Kick-Ass.)


Primeiramente, vale mencionar que já fiz uma crítica do filme Kick-Ass pré-Clímax no meu antigo blog e também participei de um podcast sobre o tema do finado blog O Movimento.

Resumindo minha opnião sobre o filme e o quadrinho: ambos são obras muito divertidas, que possuem uma inicialização muito interessante e que o filme acaba sendo mais bem resolvido como uma obra fechada e no roteiro do que a revista do Mark Millar.

O primeiro ponto que chama a atenção no projeto filme/quadrinho de Kick-Ass é o fato das duas obras narrativamente falando terem inícios semelhantes mas apresentarem finais diferentes.

As diferenças não aconteceram apenas porque a equipe responsável pelo filme resolveu mudar a história com o pretexto da adaptação, como geralmente acontece. A história foi mudada porque, num caso inédito, o filme começou a ser desenvolvido ao mesmo tempo em que o final do quadrinho ainda não havia sido publicado ou sequer escrito.

Vamos ignorar o fato do Mark Millar ser um cara muito esperto e ultimamente estar usando sua popularidade para criar projetos em quadrinhos que já tem um potencial cinematográfico inicial para já serem vendidos para o cinema facilmente, Kick-Ass mesmo foi assim, lembrando que outra HQ sua – O Procurado – já recebeu uma adaptação e a adaptação de War Heroes também sairá.

Apresentar dois finais diferentes para uma mesma história, como duas realidades paralelas, um em uma mídia e outro em outra, é algo até então inédito, uma “idéia doentia” que não tinha passado pela cabeça de ninguém, ou até nem mesmo tenha passado pela cabeça dos responsáveis até a pré-produção do projeto cinematográfico ter sido engatilhada e eles verem que tinham de dar um jeito naquela bagunça, o que fizeram de forma esperta.

Criando duas obras diferentes, o roteirista da HQ Mark Millar e o diretor e roteirista do filme Mathew Vaughn conseguiram criar duas histórias que dialogam entre si. O filme Kick-Ass representa uma mensagem e porposta muitos diferentes do que foi o quadrinho, mesmo partindo dos mesmos personagens e argumentos iniciais, o que foi muito interessante.

Mas o mais legal é como o filme lida com essa condição, vale lembrar de cenas como Dave na Comic Shop vendo os quadrinhos baseados em si próprio, mostrando exatamente como são os quadrinhos originais de Millar e desenhados pelo excelente John Romitta Jr. com os personagens trajando seus uniformers diferentes e exclusivos para o filme ao invés dos uniformes originais da revista.

E falando em uniforme: mais um exemplo de como o filme Kick-Ass conseguiu essa conversa entre midias e com a cultura pop atual é entendê-lo como um filme lançado pouco depois de O Cavaleiro das Trevas.

Uma das grandes sacadas do roteiro do filme (que não existe na história do quadrinho) é o uniforme do personagem Big Daddy ser semelhante ao do Batman da nova trilogia de filmes do morcego sob a batuta do Christopher Nolan. Esse recurso simplismente é usado por ele para confundir os capangas da máfia, que são obrigados a dizer que foram “impedidos pelo Batman” como forma de irar seus “chefões”.

Falando em Batman, até mesmo a série dos anos 60 faz parte do pacote que é entender o filme Kick-Ass já que enquanto traja seu uniforme, Big Daddy utiliza trejeitos semelhantes ao do Batman da série interpretado pelo ator Adam West. Isto é quase uma forma de antecipar a personalidade do personagem vivido pro Nicolas Cage: ele é um “nerdão” aficionado o suficiente para se sentir o Adam West, e treinar a sua própria filha para combater o crime. Já a Hit-Girl usa uma perca que faz alusão à personagem de Natalie Portman no filme O Profissional, outra badass mirim.

Não só fazendo uma ponte com a cultura pop envolvida com o tema dos super-heróis, Kick-Ass também utiliza referências pop amplas como uma forma de comunicação de suas idéias.

A cena do tiroteio no galpão com Hit-Girl matando geral faz uma ponte com o mundo dos games, mostrando inúmeros cortes com uma visão semelhante a de um game de tiro em 1º pessoa. Ali se entende a diversão que a personagem sente em fazer o que faz, a mesma diversão que eu sinto jogando Perfect Dark.

Dave no filme exprime uma das grandes perguntas que passaram na cabeça dos jovens consumidores de séries, ele diz que não pode morrer sem saber o final de Lost. E na boa, me digam que isso não é uma forma eficiente de expressar a angustia de alguem que pode morrer ali a qualquer momento (pelo menos antes desse fim chegar e todo mundo dizer que é uma merda)?

Bom, é isso, além de Kick-Ass ter sido um dos melhores filmes de super-herói até hoje (entra num top7 fácil), ele também teve esse carater um tanto inovador. Hoje em dia eu entendo porque o filme foi comparado à Pulp Fiction por algumas pessoas.

Se a questão do Tarantino foi envolver a cultura pop no cinema, não dá pra não dizer que Mathew Vaughn não conseguiu o mesmo com seu filme, comparações de qualidade à parte. Kick-Ass dialoga não só com seu material impresso como com a cultura pop em geral, e isso é um de seus grandes trunfos.

 
exemplo dos uniformes originais de Big Daddy e Hit-Girl do quadrinho de Kick-Ass.